Quando recusar ou encaminhar um paciente
Equipe AltiviaClinica · 12/09/2026
Quem está começando aceita quase tudo, por necessidade de agenda e por uma ideia generosa de que recusar é negar ajuda.
Mas há casos em que aceitar é o que prejudica — e a diferença entre uma recusa bem feita e um atendimento que se arrasta sem direção costuma ser decidida nos primeiros quinze minutos.
Os casos em que não aceitar é a conduta correta
Demanda fora da sua competência. Não é questão de talento, é de formação e experiência. Quadro que exige abordagem ou preparo específico que você não tem é encaminhamento, não desafio.
Conflito de interesse ou relação prévia. Parente, amigo próximo, alguém com quem você tem vínculo comercial. A proximidade que parece facilitar é exatamente o que impede o enquadre.
Quadro que exige outro tipo de cuidado primeiro. Situação de risco que pede avaliação psiquiátrica, suspeita de causa clínica não investigada, emergência. Aqui não é recusa — é ordem de atendimento, e o seu papel é garantir que a próxima porta seja aberta.
Impossibilidade prática. Frequência que você não consegue oferecer, horário incompatível, valor que a pessoa não pode sustentar por tempo suficiente. Começar sabendo que vai interromper em três semanas é pior do que encaminhar agora.
E os casos em que a recusa não se sustenta
Recusa por preconceito não é conduta técnica. Orientação sexual, identidade de gênero, religião, raça, posição política: nada disso é motivo, e a "objeção de consciência" invocada nesses casos é discriminação com outro nome.
A régua é honesta e simples: você recusaria essa pessoa se o assunto fosse outro?
Como encaminhar sem abandonar
Encaminhamento mal feito é indistinguível de porta fechada. O que separa um do outro:
- um nome, não uma categoria. "Procure um psiquiatra" transfere a tarefa. Dois ou três contatos concretos resolvem.
- a razão dita com clareza, sem jargão. A pessoa precisa entender por que outro profissional atende melhor aquilo — senão ela ouve rejeição.
- a ponte, quando for o caso: falar com quem vai receber, com autorização, encurta o caminho e reduz a chance de a pessoa não ir.
- a porta de volta aberta, se fizer sentido. Muitos casos voltam depois da etapa que faltava.
Construir essa rede antes de precisar dela é o que torna o encaminhamento rápido. Quem não tem para quem indicar acaba aceitando o que não deveria.
A conversa de triagem existe por isso
Quinze a vinte minutos antes de agendar a primeira sessão respondem quase tudo: o que a pessoa procura, o que já tentou, se há acompanhamento em curso, qual disponibilidade e qual condição.
Esse contato tem duas funções, e a segunda é a que se esquece: ele protege a pessoa de começar um processo que vai ser interrompido — e protege você de ocupar uma vaga com um caso que precisava de outra coisa.
Muitos consultórios cobram por essa triagem quando ela é longa. Outros tratam como parte da captação. As duas escolhas são legítimas; a que não é legítima é não fazer.
Registre, mesmo quando não há atendimento
A pessoa que você não aceitou não vira paciente, mas o contato existiu — e ele pode voltar como pergunta meses depois.
Duas ou três linhas bastam: o que ela procurava, por que não foi aceita, para onde foi encaminhada e em que data. Sem conteúdo clínico que não é seu para guardar.
É o registro mais fácil de não fazer e o que sustenta a sua conduta se alguém disser que foi mandado embora sem explicação.
O AltiviaClinica guarda o contato de triagem e o encaminhamento com data, mesmo quando o atendimento não começa, com o mesmo cuidado de acesso do prontuário. Veja o software para psicólogos ou o prontuário eletrônico.